A obra reúne uma coletânea multifacetada de artigos que exploram, sob múltiplos olhares, o papel central da educação na promoção de uma cultura de paz. A publicação parte da premissa fundamental de que a educação é inseparável do respeito à dignidade humana, da busca pela verdade, da memória como base identitária e do perdão enquanto ferramenta de reconciliação e justiça. O volume articula reflexões teóricas, históricas, filosóficas, pedagógicas e práticas em seções que abordam desde a fundamentação ética e filosófica da cultura da paz, passando por experiências e dilemas concretos, até aplicações em contextos atuais e exemplos paradigmáticos do uso (e abuso) da educação, poder e verdade.  Como o texto recolhe múltiplas contribuições em artigos extensos, listamos os principais pontos de cada seção relevante:

1. Apresentação e Introdução: Apresenta o axioma da educação para a paz como missão central para a dignidade humana e justiça. A série AXIOMA busca superar “pedagogismos” e construir um diálogo interdisciplinar, assentando-se na tradição educativa jesuíta e na pedagogia da razão e do coração.O Congresso Internacional propõe a memória, verdade e perdão como trilhas para restaurar a dignidade e construir justiça.

 2. Contribuições para a Reconciliação (Izaskun Sáez de la Fuente Aldama). Analisa como a memória e a história, sob a perspectiva das vítimas, são condições para uma reconciliação autêntica. Ressalta o valor do testemunho das vítimas e a necessidade da justiça restaurativa com foco no reconhecimento, memória e não-repetição. Destaca a importância da pedagogia narrativa das vítimas e da consciência histórica como instrumentos contra a violência legitimadora.

3. Fundamentos Filosóficos e Religiosos da Paz (Pedro Maria Godinho Vaz Patto). Baseia-se em documentos como “Pacem in Terris” e “Fratelli Tutti”, ressaltando que a paz deve ser mais que ausência de guerra: deve ser pautada por justiça, verdade e amor. Discute os limites da autodefesa e a necessidade de resistência não-violenta, diplomacia e proporção na resposta à violência. Analisa conflitos atuais, discute casos históricos do “direito à guerra justa” e formas eficazes de resistência pacífica, como a satyagraha de Gandhi.

4. Educação e Cultura de Paz: O Caminho do Perdão (João Vieira Borges). Reflete sobre o valor do perdão na reconstrução social e internacional após conflitos, citando experiências das Forças Armadas e políticas de Estado. Destaca a diferença entre “paz imposta” e “paz justa”, o papel da liderança e processos culturais de reconciliação histórica.

5. Rumo ao Outro, o Caminho da Paz (Carlos V. Estêvão). Afirma que a centralidade do outro é condição de possibilidade para a paz e para a cidadania verdadeiramente justa (“cosmopolítica”). Ressalta a necessidade de superar o desamor e a estranheza diante do diferente, além da pedagogia para o perdão e reconhecimento mútuo.

 6. Abertura à Verdade (Maria Emanuel Almeida). Discute a educação para a paz como ato moral, colocando saber, saber-ser e conviver em destaque. Analisa e diferencia variantes históricas e culturais do conceito de paz (eirene, pax, shalom, ahimsa).  Salienta a importância da verdade como eixo ético e epistemológico para a construção de uma cultura de paz.

7. Racionalidade, Violência e Cultura da Verdade (António Mendes). Problemática do racionalismo utópico frente à pós-verdade, fake news e meritocracia excludente. Propõe que a cultura de pensamento crítico e o modelo de disputas dialógicas da pedagogia inaciana são chaves para sustentar a paz perante o risco de estratégias de manipulação e cancelamento.

8. Formação de Professores para Educação Transformadora (Cristina Sá Carvalho). Examina como o ambiente escolar pode ser construído como espaço seguro, de convivência e cooperação pacífica. Ressalta importância da liderança docente com base na cooperação, inclusão e na prevenção ativa da indisciplina, rejeitando abordagens punitivas.

9. Abuso, Cultura do Cuidado, Poder e Consciência (Ianire Angulo Ordorika e J. M. Martins Lopes). Abordam o abuso de poder, autoridade e consciência na Igreja (e contexto eclesial) como exemplares sobre as ambiguidades do uso do poder em instituições. O abuso é favorecido por estruturas de poder verticalizadas e narrativas que distorcem o Evangelho; propõem transparência, corresponsabilidade e discernimento como meios de superar a “cultura do abuso” e gerar “cultura do cuidado”.

10. Cancelamento e Liberdade de Expressão (Maria José Ferreira Lopes). A análise da “cancel culture” e seus paralelos com os processos de silenciamento na Antiguidade (ex. Tácito) mostra como sociedades que sacrificam a verdade e liberdade, cedendo à tirania ou ao moralismo, perdem em civilidade, democracia e paz.

11. História da Religião no Ensino e Tolerância (Marta Lourenço). O estudo do fenômeno religioso de forma histórica e crítica no ensino obrigatório é apresentado como instrumento essencial para fomentar tolerância, diálogo, cidadania plural e combater preconceitos numa sociedade laica, mas plural.

12. Participação Coletiva, Justificação e Ética Social (Ricardo Barroso Batista). Relação entre razões de participação, agência coletiva e deliberação moral no agir social. Fundamenta filosoficamente o “fazer a sua parte” (voto de consciência, práticas ecológicas e de paz) mesmo quando a cooperação total não está presente, mostrando papel da racionalidade e ética nas decisões em contextos coletivos.

13. Tragédia Grega e Educação para a Paz (Sandra Pereira Vinagre). Demonstra a atualidade das narrativas de Eurípides (“As Troianas”) como instrumento artístico e educacional para reflexão crítica, desconstrução de preconceitos e promoção humanista da cultura da paz, especialmente em contextos de migrações e xenofobia.

14. Juventudes e Cultura de Paz no Brasil (Victor Hugo Nedel Oliveira). Analisa pesquisas de pós-graduação sobre cultura da paz, juventudes e escolas no Brasil (2000-2022), destacando avanços, lacunas e enfoques sobre promoção da paz, educação em direitos humanos e estratégias para combater a violência juvenil em contexto escolar.

A coletânea “Educação e Cultura de Paz: Memória, Verdade e Perdão” propõe reflexão profunda e inovadora sobre o papel da educação na construção de sociedades mais justas, tolerantes e pacíficas. Ela revela que só a interseção da memória empenhada, do compromisso com a verdade e da abertura ao perdão pode fundar relações sociais verdadeiramente restaurativas e democráticas. O livro desafia o leitor a enfrentar abusos institucionais, cultura de silenciamento e práticas de intolerância com coragem ética, discernimento racional e uma pedagogia atenta ao detalhe da alteridade e ao horizonte maior do bem comum. Mais que um manual acadêmico, a obra é chamada à responsabilidade, à justiça e à esperança por um novo humanismo para uma sociedade em transformação.

Descargue el pdf del libro, desde la Biblioteca del CVPI, en este enlace